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when napalm strikes, une ironie brésilienne

26, agosto, 2019.

quando o napalm ataca, uma ironia brasileira /

O sol baixa vem a noite e, para aqueles mais sortudos, o alento de um teto sob o qual repousar se apresenta para enfrentar um novo dia. Pela manhã acorda já incomodado, inquieto. Algo paira no ar, um cheiro irreconhecível penetra seus pulmões que quase não aguentam o peso. Sem tempo para sentir segue o jogo cotidiano. Velhos estatutos de uma nova política velha. Sob o Brasil de amanhã se impõe um Brasil de ontem, de um passado que não se furta a se fazer presente. Novos inimigos, novas guerras… seriam eles tão novos assim? Cultura, artes, ensino; não se poderia dizer que é a primeira vez que eles são tomados como o mal a ser enfrentado.

É compreensível, é pelo ensino, pelas artes, pela cultura que os corpos se aguçam, é por elas que se luta frente a uma domesticação incessante um domínio (ir)reparável. Não para agradar um status quo estabelecido tomam formas de cavaleiros do apocalipse. Um prelúdio a ser evitado: novas ideias, novos modos, novos corpos.

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Os quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Viktor Vasnetsov (1887)

De qualquer forma a arte emerge, de Rosana Paulino à Ai Weiwei a força de exercer sua liberdade, sua resistência perante o mundo não cessa, não cansa. Em tempos de obscurantismo sabem a importância de tornar visível, tornar sensível todas as mazelas que nos afligem. Mostrar o flagelo do corpo, a vertigem da democracia, a fragilidade dos esquecidos, lembrados somente quando com um alvo sob suas costas. Afinal “Tudo é arte. Tudo é política”.

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Maquetes S.A.C.R.E.D, por Ai Weiwei (2011–2013)

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Assentamento, por Rosana Paulino (2013)

Mostrar o real, evidenciá-lo pode ser uma das funções da arte atualmente e nada mais assusta uma política de mentiras, de autoverdade, que a explícita realidade que enrola o estômago, assusta o olhar que já não poderá desver o visto. Arte que no encontro com os senhores da guerra mantém-se firme mesmo ferida e que repousa sobre o momento respirando daquele mesmo ar pesado, reconhecendo-o.

- você sente isso? Você sente esse cheiro?

- o que?

- Napalm filho. Nada mais no mundo cheira como isso… Eu amo o cheiro de napalm pela manhã. (…) O cheiro, você sabe aquele cheiro de gasolina, pela colina inteira… Cheira a… vitória. Algum dia essa guerra vai acabar.

Sabemos à qual lado pertencemos nessa história… e a guerra, essa só acabará quando já não restar nada, “nem um corpo fedido” a ser educado, nem uma arte e ser vista, sentida. Holocausto a lá brasileira! Por Deus, pela família, pela moral, uma ironia.

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